O novo mapa das fusões e aquisições no Brasil — e o lugar de Goiás nele
Menos negócios, mais dinheiro. Essa é a fotografia do mercado brasileiro de fusões e aquisições em 2026 — e Goiás deixou de ser coadjuvante nessa história.
Há um dado que resume bem o momento. Entre janeiro e junho de 2026, o Brasil registrou 593 operações de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês), queda de aproximadamente 35% em relação ao mesmo período de 2025. No entanto, o valor agregado dessas transações cresceu 15%, alcançando US$ 32,557 bilhões, segundo levantamento da Aon em parceria com a TTR Data e a Datasite.
Menos negócios movimentando mais capital não é sinal de fraqueza. É sinal de mudança de comportamento. O investidor de 2026 não quer volume — quer o ativo certo.
O que mudou
Quatro forças explicam o desenho atual do mercado.
O custo do dinheiro. A Selic permaneceu em 15% ao ano de junho de 2025 a março de 2026, quando o Banco Central iniciou o ciclo de afrouxamento. Vieram quatro cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual — março, abril, junho e agosto —, levando a taxa aos atuais 14% ao ano. O Boletim Focus projeta 13,75% ao fim de 2026 e 12% em 2027. É um alívio real, mas lento: o capital segue caro o bastante para impor disciplina. Com dinheiro a esse preço, ninguém dispara em várias direções ao mesmo tempo.
A reforma tributária. A transição para o novo modelo alterou premissas de valuation, de estruturação societária e de planejamento de longo prazo. Operações que antes se resolviam com um cálculo de sinergia passaram a exigir modelagem tributária cuidadosa — e isso naturalmente favorece transações maiores, capazes de absorver o custo dessa complexidade.
A inteligência artificial. Não como produto, mas como consumo. O mercado percebeu que a IA não depende apenas de algoritmos: depende de energia, capacidade computacional, conectividade e armazenamento. Se nos últimos anos os investidores disputavam empresas de software, em 2026 disputam a infraestrutura física que sustenta esse software.
A geopolítica. O bloqueio do Estreito de Ormuz interrompeu exportações de alumínio do Golfo Pérsico. A Guiné, maior exportadora mundial de bauxita, passou a impor cotas de exportação a partir do segundo trimestre de 2026. A China concentra mais de 90% da exploração e da transformação de terras raras no mundo. Cada uma dessas circunstâncias transformou ativos brasileiros — antes tratados como simples commodities — em posições estratégicas disputadas.
Quais são os ativos da vez
O padrão é claro: valem mais os ativos ligados a mudanças estruturais da economia do que, simplesmente, as empresas com bons resultados.
Energia, pela eletrificação e pelos data centers. Mineração e minerais críticos, pela segurança das cadeias globais de suprimento. Tecnologia, pela IA. Infraestrutura, pela previsibilidade de contratos de longo prazo. Agronegócio, pela produtividade e pela integração de cadeia. Saúde, pela escala e pela digitalização.
O que esses setores têm em comum é justamente o que os compradores hoje procuram: ativos, capacidades ou posições de mercado difíceis de replicar.
Por que se compra
Três razões predominam nas mesas de negociação de 2026.
A primeira é escala. Comprar deixou de ser atalho para crescer e passou a ser condição para competir. Em 30 de junho, a Alcoa anunciou acordo para adquirir todos os ativos de alumínio da australiana South32 por US$ 4,1 bilhões, com sinergias estimadas em cerca de US$ 900 milhões em valor presente líquido.
O caso ilustra bem a lógica atual, porque combina dois movimentos distintos. No consórcio Alumar, em São Luís (MA), a Alcoa já era sócia majoritária: detém 54% da refinaria de alumina e 60% da fundição de alumínio. Ao comprar as participações da South32 nesses ativos — 6% e 40%, respectivamente — a companhia não ingressa em um negócio novo; ela elimina um sócio e passa a deter integralmente aquilo que já operava havia décadas. Já na Mineração Rio do Norte, em Oriximiná (PA), o efeito é o oposto: ao assumir os 33% que pertenciam à South32, a Alcoa entra pela primeira vez no capital da maior mina de bauxita do país.
Consolidar o que já se controla e assegurar a matéria-prima que ainda falta são, portanto, as duas pontas da mesma estratégia. A operação ainda depende da aprovação dos acionistas da South32 e dos órgãos reguladores dos países envolvidos, com fechamento previsto para o primeiro semestre de 2027.
A segunda é segurança de suprimento. Quando o acesso a uma matéria-prima se converte em risco geopolítico, a resposta empresarial é verticalizar. É exatamente o raciocínio por trás da corrida por bauxita e por terras raras.
A terceira é posicionamento de longo prazo. Compradores bem capitalizados aproveitam janelas de juros altos para adquirir ativos maduros, que gerarão caixa por décadas: infraestrutura aeroportuária, transmissão de energia, concessões.
Por que se vende
Do outro lado da mesa, os motivos são igualmente racionais.
Há reposicionamento de portfólio. Em 1º de setembro de 2026, a Motiva (antiga CCR) concluiu a venda integral da CPC — holding que reunia suas participações em 20 aeroportos, sendo 17 no Brasil — ao grupo mexicano ASUR. O negócio somou R$ 5,187 bilhões pelas ações e cerca de R$ 12,2 bilhões considerada a dívida assumida. A justificativa da companhia foi direta: simplificar o portfólio e concentrar capital em rodovias e trilhos. Vender, aqui, não foi derrota; foi escolha estratégica.
Há pressão de valuation e de sucessão. Avaliações comprimidas por juros altos e por incerteza afastam o empresário que não tem urgência, mas aceleram quem enfrenta dificuldade financeira ou questões sucessórias.
E há realização de ciclo de fundo. Gestoras que investiram há cinco ou sete anos precisam devolver capital a seus cotistas. O calendário do fundo não espera o cenário melhorar.
Goiás no centro do mapa
Aqui está o ponto que interessa diretamente a quem lê deste lado do Cerrado: Goiás não observa esse ciclo de fora. Está no meio dele.
Terras raras. No início de setembro de 2026, a norte-americana USA Rare Earth concluiu a aquisição de 100% da Serra Verde, que opera a mina Pela Ema, em Minaçu, no norte goiano. O pagamento combinou US$ 300 milhões em dinheiro e 126,8 milhões de ações recém-emitidas — o que, pela cotação vigente à época do anúncio, em abril, atribuiu ao ativo goiano valor aproximado de US$ 2,8 bilhões, algo em torno de R$ 14 bilhões.
O peso da operação vai além do valor. A Serra Verde é a única produtora em escala comercial de terras raras do Brasil e a única fora da Ásia a fornecer, em escala, os quatro elementos magnéticos. A compradora projeta que o ativo goiano responda por mais de 50% da oferta de terras raras pesadas fora da China até 2027. O governo norte-americano já se comprometeu com US$ 1,3 bilhão em empréstimo e US$ 277 milhões em financiamento direto à USA Rare Earth, em troca de participação acionária minoritária.
Não há como ler isso apenas como um negócio privado. Trata-se de política industrial americana aplicada a uma jazida goiana. E nada ilustra melhor essa dimensão do que o momento escolhido: a conclusão da compra ocorreu no dia seguinte à aprovação, pelo Senado Federal, do marco legal dos minerais críticos (PL 2.780/2024), em 2 de setembro. O texto institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e cria o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, vinculado à Presidência da República, com prerrogativa para avaliar — e eventualmente barrar — mudanças de controle acionário em titulares de direitos minerários de terras raras, por razões de soberania nacional. O projeto aguarda sanção presidencial.
Para o operador do direito, o recado é evidente: a due diligence de ativos estratégicos brasileiros passou a exigir leitura regulatória e geopolítica, e não apenas societária e tributária.
Energia e infraestrutura digital. A EDP anunciou investimento de aproximadamente R$ 450 milhões em transmissão de energia em Goiás entre 2026 e 2028. A empresa atua no estado desde 2022, quando assumiu a gestão da CELG T, arrematada por R$ 2,1 bilhões em leilão realizado em 2021, e ampliou sua presença em 2025, com o Lote A do leilão da CELGPAR e um lote do leilão de transmissão da ANEEL. Hoje opera 907 quilômetros de linhas e 16 subestações no estado, com outros 285 quilômetros e uma nova subestação em construção.
A justificativa da companhia nomeia exatamente os vetores discutidos acima: atender à demanda crescente de data centers, computação em nuvem, inteligência artificial, indústria de alta tecnologia e agronegócio automatizado. Goiás tornou-se o centro estratégico de transmissão da empresa no Brasil.
O gargalo que também é oportunidade. O crescimento goiano tem cobrado seu preço. A ampliação da capacidade de distribuição de energia tornou-se prioridade estadual justamente para que a chegada de setores intensivos em consumo elétrico não esbarre nos limites da rede. Onde há gargalo de infraestrutura e demanda garantida, historicamente há investimento — e, na sequência, consolidação.
Agroindústria. O estado segue atraindo capital para transformar produção agrícola em derivados de maior valor. A Inpasa lançou a pedra fundamental de uma biorrefinaria de etanol de milho em Rio Verde, com investimento de R$ 2,4 bilhões e capacidade projetada para processar 2 milhões de toneladas de milho por ano. A Cargill, por sua vez, consolidou sua posição no setor após assumir o controle integral da SJC Bioenergia e anunciou nova usina de etanol de milho em território goiano. São movimentos que criam, no médio prazo, ativos consolidáveis — e, portanto, alvos de M&A.
O que isso significa para o empresariado goiano
Goiás não lidera o ranking nacional em número de transações. Mas participa do ciclo pelo que hoje pesa mais: a qualidade estratégica dos seus ativos.
Isso muda a agenda de quem empreende aqui. Em um mercado que privilegia poucos negócios grandes, o comprador seleciona as melhores empresas, não as mais baratas. E “melhor” passou a significar algo bastante concreto: governança organizada, documentação societária impecável, contabilidade auditável, contratos formalizados, passivos mapeados e estrutura tributária compatível com o novo regime.
Empresa despreparada não perde o negócio na mesa de negociação. Perde na due diligence — depois de já ter gastado tempo, dinheiro e credibilidade.
O ciclo atual recompensa quem chega pronto. Em Goiás, os ativos existem. A pergunta que fica para o empresariado local é se as empresas que os detêm estarão em condições de negociar quando o comprador certo bater à porta.
Thiago Braga Fujioka
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